Escrever pode mudar tudo.


sexta-feira, 26 de junho de 2015

Vômito


Às vezes, sinto uma necessidade visceral de escrever. É cíclico, como o ciclo menstrual. Mas nem sempre demora trinta dias. Podem ser ciclos de um dia. Apenas um dia sem escrever desencadeia tudo. Podem ser ciclos de quinze, de vinte, de sessenta dias. O fato é que há ciclos, como o ciclo menstrual, que vem acompanhado de dores e purifica o corpo. De tempos em tempos sinto uma necessidade visceral de escrever. Algo que faz com que minha cabeça doa por dias seguidos, como se alguma coisa quisesse sair de dentro. É uma dor difusa, por trás dos olhos, nas têmporas, na maxila, nos dentes, em todo o nervo trigêmeo. Pode se manifestar de um só lado da cabeça com reflexos no estômago. Ânsias de vômito. É como se eu precisasse vomitar palavras em qualquer papel. Ainda que sejam coisas desconexas, como isto que escrevo agora.

Mas é preciso também que alguém leia. Sem o leitor não há o que escreve, o escritor. A escrita é um ato que só se completa na leitura do outro. Enquanto escrevo, as palavras estão sempre ainda incompletas. Elas só alcançam completamente o sentido quando o outro lê. E não sei se é uma boa ideia deixar que leiam coisas desconexas em um blog da internet que qualquer pessoa pode acessar. Porque os amigos, os amigos de verdade, entendem esses acessos, mas as pessoas que não te conhecem, as pessoas que te julgam pelas aparências, pelas fotos no facebook, pelo seus trabalhos, pelas suas sentenças, pelas decisões, pelas aulas, as pessoas que te julgam pelas opiniões sempre tão bem ponderadas e pensadas, o que essas pessoas pensarão quando o texto que sai assim em fluxo, como um vômito, é publicado?

Tenho certeza que não é boa ideia publica-lo, mas quem consegue controlar o vômito? O suco gástrico que sobe queimando o esôfago e abrindo todos os canais de maneira urgente? Quem consegue controlar a necessidade de botar pra fora?

Preciso de uma Neosaldina. Uma não, duas. Neosaldina devo escrever com letra maiúscula. Uma substância capaz de aplacar minha dor de cabeça, como o sol bem forte dissipa o nevoeiro e faz tudo claro e nítido, deve sempre ser escrita com a inicial maiúscula. Viva a indústria farmacêutica! Viva a cafeína! O que seria de mim sem a dipirona? Precisaria escrever bem mais. E me falta tempo para escrever. Como me falta tempo, tomo uma Neosaldina. Uma não, duas.

O pior desses momentos é que não percebo a origem do incômodo. Uma cegueira, uma debilidade intelectual crônica me impedem de conhecer a origem do incômodo. Fico rodando e rodando. No dia seguinte, dor de cabeça. Leio e me angustio com a leitura. Delicio-me com a leitura. Empanturro-me. Mas a leitura não resolve porque não vomito. O algo que preciso botar fora continua lá. Como me angustio com a leitura! É que o que leio é perfeito demais, é bom demais para que eu consiga emular. E tenho medo de vomitar coisas podres. As pessoas que escrevem são jovens demais. Como podem ser tão jovens e escrever tão bem!?


Então vomito e as palavras saem assim, esparramadas no papel, urgentes, azedas como um suco gástrico há muito tempo guardado que me ulcerava por dentro.  Basta isso para me acalmar. Uma página em branco, algumas palavras vomitadas. Pronto, já vai melhorar. Muito obrigado por ter lido até aqui. É aqui, no final, exatamente agora, que você me faz escritor e alivia a minha dor.

Nagibe Jorge

domingo, 5 de abril de 2015

Conversa de Páscoa

O menino remexeu a terra com um pequeno graveto, pensativo. De repente, levantou a fronte, quase sem tirar as mãos do chão.
- Mas, pai... como é que Deus salvou o mundo? Ele precisava deixar o filho morrer para salvar o mundo? Ele não é Deus?
O pai, que se balançava em uma cadeira ao lado, baixou o livro.
- Hein?
- Ele não era Deus, pai? Deus pode tudo!
O homem olhou para as nuvens carregadas que tantas vezes anunciavam chuva e não choviam. Lembrou de seu próprio pai e do dia em que fez uma pergunta parecida. O que é salvar? Como o mundo está salvo se todos os dias vemos tanta maldade e tantas desgraças?
- Pai! – o menino insistia, uma insistência bem típica dos seus 10 anos.
- Salvar é dar sentido, filho. Salvar é dar sentido.
O menino olhava meio perplexo. Voltou a cavoucar a terra.
- Esse buraco que você está fazendo aí. Daqui a pouco vai ser esquecido, vai chover, a terra vai se acumular dentro dele e amanhã não vamos saber nem onde era o buraco. Mas nós podemos dar sentido a ele. Poderíamos, por exemplo, enterrar aí um diamante precioso. Então dificilmente esqueceríamos. Esse pequeno trabalho que você está fazendo passaria a ser tremendamente importante. Saberíamos que o diamante está aí, marcaríamos o lugar e lembraríamos dele porque ele contém uma pedra preciosa.
- E Deus fez isso, foi?
O homem não sabia ao certo se Deus fez bem isso, mas resolveu arriscar e dizer da melhor forma como tudo lhe parecia.
- Quando Deus permitiu que seu único filho fosse atingido pelo sofrimento e morresse, Deus deu sentido ao nosso próprio sofrimento, à nossa morte. É como se todo sofrimento humano fosse o mesmo. Quando vemos o céu, vemos o mesmo céu. Não importa as distâncias, todo ser humano tem mais ou menos a mesma visão do céu. Todos sabemos como são as nuvens. Na Inglaterra, onde sua tia mora, as nuvens não são muito diferentes, nem as estrelas. Você lembra? Com o sofrimento é igual. Todos sofremos uma parte do mesmo sofrimento, assim como vemos todos uma parte do mesmo céu. Deus sofre conosco o mesmo sofrimento e morre conosco a mesma morte. Nosso sofrimento não é em vão, tem sentido.
- Mas o sofrimento é péssimo, né pai? Não dava para Deus acabar com o mal de uma vez?
O pai riu.

- Não sei, meu filho, não sei... Se soubéssemos, Deus não seria Deus. A única coisa que sei é que a vida é feita de alegrias e tristezas. Ninguém passa pela vida sem sofrer. A única coisa que sei é que, quando estivermos tristes, Jesus estará lá, sofrendo conosco e nos ajudando a encontrar sentido.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Qual o Enigma dos Livros?

Cortei na carne. Acho que descartei mais de duzentos, talvez trezentos. Não sei, desisti de contar. Comecei fazendo uma faxina. Não uma simples faxina. Uma senhora faxina. As aranhas estavam dominando tudo, apareciam com suas teias por todos os lados. No começo foram bem vindas. Estavam comendo as traças e as traças estavam comendo os livros. Depois saiu tudo do controle. Parecia haver espaço e comida para as traças e para as aranhas e quanto mais traças, mais aranhas.

Chamei uma especialista. Especialista em faxinas, não em traças ou em aranhas. Seria simples. Era retirar os livros das estantes, limpar um a um, limpar as prateleiras e recolocar os livros. Não podia ser mais simples. Ela chegou com ânimo. Demorou um dia inteiro na limpeza. Ficou ótimo; ou melhor, ficaria ótimo se eu não tivesse tido a péssima ideia de espalhar naftalina entre os livros com o fim de repelir as aranhas e as traças. Ninguém poderia aguentar aquele cheiro. Era simplesmente insuportável. Eu não podia mais trabalhar, usar o gabinete, estar nele, ler, passar o tempo. Era como estar em uma nuvem de naftalina. Pesquisei na internet meio displicentemente sobre o naftaleno, falta do que fazer. Quem procura o que quer, acha o que não quer. Naftaleno: um derivado do petróleo que pode ser tóxico, talvez cancerígeno. Foi o bastante. Eu não estava disposto a correr o risco. Era preciso retirar todas as bolinhas de naftalina escondidas naquele amontoado de livros. Rápido!

A especialista havia sido hábil em escondê-las. Como um jogo de caça ao tesouro às avessas, saí farejando as prateleiras, retirando os livros recém limpos, bagunçando o que depois de muito tempo estava organizado com certa ordem. Todo o processo demorou alguns dias. No primeiro dia consegui achar e dei fim a cerca de quatorze bolinhas de naftalina, mas o cheiro continuava. Passava na porta do gabinete e lembrava do guarda-roupa da minha avó, das gaveta da minha tia e de baratas. Naftalina me lembra baratas. Continuei a busca durante muitos dias, sempre nas horas vagas. Como um perdigueiro, continuei farejando as gavetas, os armários, os papéis, achei mais sete ou oito bolinhas a razão de duas ou três por dia. Depois de mais uns dias, tudo parecia ter chegado ao fim.

Acho que não havia mais naftalina. Finalmente o gabinete seria declarado naftalina free, mas os livros estavam um pandemônio, espalhados pelo chão, fora de ordem, empilhados por todos os lados, por todos os cantos, tudo virou prateleira, eu não conseguia mais achar minha mesa de estudo. Além disso, descobri que a especialista estava mais empenhada em limpar os móveis que propriamente os livros ou em acabar com as aranhas, com os cupins ou com as traças. Os livros ainda estavam empoeirados. Talvez tudo aquilo fosse, afinal, um grande trabalho de Sísifo. Alguns dias depois da limpeza, as aranhas estavam de volta e havia pequenas asas por todos os cantos. Na época das chuvas, os cupins se transformam em formigas de asas, saem não sei de onde e caem nas teias, algumas conseguem escapam por entre os livros.

Foi quando bateu a crise. A verdade é que estava cada vez mais difícil encontrar pessoas dispostas a limpar os livros, enquanto eu estava cada vez mais disposto a comprá-los. Comprá-los sem garantias que serão lidos um dia. É que há livros que me deixam menos ansioso só de tê-los por perto. Vejo-os na estante e acredito, por um instante, que algum dia poderei lê-los, conversar com eles, conhecê-los melhor. O conhecimento ali guardado, de algum modo, estaria acessível e protegido por mim. Tenho certeza, como toda pessoa sensata, que morrerei sem ter lido nem a décima parte do que gostaria. Como também é certo que às portas da morte terei esquecido de quase tudo que li, das melhores conversas com os melhores amigos e de muitos bons momentos. O que me leva a crer que não lemos para lembrar, assim como não vivemos para a memória, lemos e vivemos pelo momento, pelo instante fugidio em que alguém ou alguma coisa nos comunica algo, nos emociona e temos a certeza de que não estamos sozinhos, alguém é capaz de nos compreender e sentir igual a nós.

Nos piores momentos chego a pensar que os livros me engolirão, como a Esfinge. Decifra-me ou te devoro. E sou incapaz de decifrar esse enigma dos livros, do amor por eles, da angustia  daquelas milhões de palavras fechadas entre as capas que querem todas gritar ao mesmo tempo, da urgência de ler algum outro livro quando temos qualquer um nas mãos, da tranquilidade de tê-los perto. Precisava dominá-los ou seria dominado por eles. Quantos livros são necessários a um homem? Resolvi limpá-los e organizá-los eu mesmo. Nada de especialistas. Não delegaria nada. Catalogar. Remover a poeira de um por um. Surpreendi-me com muitos grifados e marcados. Teriam sido lidos? Onde estava a memória sobre aquelas folhas? A que pensamentos e reflexões teriam servido? Com alguns, o contato direto me fazia reviver as mesmas impressões e emoções que me despertaram algum dia. Seriam as mesmas? A memória nos engana. Lembro a fisionomia, a personalidade, o jeito de andar de um ou outra personagem, mas me escapa o nome. Lembro vagamente uma teoria ou argumento, mas me escapa o filósofo, o jurista, o autor, a própria obra.

A medida que os organizava precisava encontrar uma resposta satisfatória para a perguntar acusatória: por que acumular tantos livros? Não fazia sentido. Resolvi descartar o maior número possível. Jogava-os em uma grande pilha, como se fosse para serem queimados. Já havia feito isso antes. Mas agora não seriam apenas os ruins, os fracos, os inúteis, os imprestáveis. Era preciso cortar na carne. Encontrar espaço. Jogar fora, doar, vender tudo que não fosse absolutamente essencial. A Esfinge a espreita pronta para me devorar. Terminei exausto. No dia seguinte ainda salvei muitos da pilha do descarte. Muitos que eu ainda preciso ter por perto. Qual o enigma dos livros? 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Começo

Não sei por onde começar. Então, começo por qualquer lugar porque o fim é sempre um recomeço e os começos já trazem em si o fim. 

Talvez o tempo seja um novelo, um linha bem enrolada, uma linha que, quando estirada, tem começo, meio e fim. O tempo é uma linha enrolada em torno de si mesma, muitos começos se juntam a muitos meios e fins. Tudo comprimido, retorcido, embaraçado.

Não sei por onde começar. Corto a linha e estico o tempo. O meu tempo. Eu escolho um começo e posso fazer dos fins novos começos. Hesito. Não sei onde cortar. Roço a tesoura ao longo do fio e, meio displicente, pressiono a lâmina. Pronto. Fez-se um começo.

domingo, 16 de novembro de 2014

Fora de Esquadro

Entrou no apartamento. Poeira e escombros. A reforma havia começado há exatos nove dias. Como sempre, estava arrependida, mas não podia mais voltar atrás. Precisava continuar nadando para alcançar a outra margem ou um navio que passe para lhe salvar. Quem? Não entendia nada de projetos. Gastou o que não tinha e viu a viagem do final do ano, a primeira que faria em muitos anos, pisada pelo pedreiro e dois serventes. Onde estava o copo? Não havia mais o seu copo, havia alguns copos coletivos, copos de todo mundo. Vinha-lhe a advertência da mãe. Beba no seu copo! Só no seu copo! É uma questão de higiene, minha filha. Quarenta e oito anos depois ainda lembrava dos conselhos da mãe, como se um ferro quente tivesse marcado aquilo bem fundo em alguma parte que ela não conseguia reformar. Estivesse a pia ainda no lugar lavaria o copo, mas a sede, a bagunça e os copos meio empoeirados lhe convenceram a beber no mais limpo, no mais perto, no que conseguisse encontrar, no que estivesse sobrando. Deveria haver uma vantagem, a imunidade sempre aumenta. A cozinha e dois banheiros, o bastante para ocasionar tudo aquilo.

O pedreiro já estava muito à vontade depois dos três primeiros dias, já ficava sem camisa e cantarolava o tempo todo. Entrava em uma casa que não lhe pertencia mais. “Ela não anda... ela desfila...”. De quem era a música? Até gostava da música. Estava fora de si, fora desalojada, como se a reforma remexesse também na sua estrutura psíquica, na sua alma. Lidar com pessoas, não sabia lidar com pessoas, não sabia mandar, se impor, pedir, ordenar, não sabia conversar, não sabia o que fazer, não sabia nada, queria ficar sozinha, no quarto, o refúgio tranquilo em meio à tormenta, queria acabar com tudo aquilo, queria desaparecer. Mas ia ficar lindo, foi o que a arquiteta disse. Estava tudo velho, como sua vida, como sua rotina, que era velha mas fazia falta, queria de volta sua rotina e sua privacidade e sua cozinha. Queria de volta o homem que nunca teve, mas a reforma não ia mudar nada disso. Era uma capa, um revestimento, uma mentira, uma desculpa, uma satisfação. Para quem? Raramente recebia visitas. A quem você quer mesmo impressionar? Satisfação para ela mesma, não se deixaria envelhecer como uma mulher desleixada, sem vaidade, como alguém a quem o tempo e os amigos esqueceram, como alguém esquecida pelos próprios móveis, pelos armários, pelo quarto. Cupim e mofo em toda a madeira. Tudo precisava de sol, ela precisava de sol e de mar, precisava sair dali, precisava acabar com aquela maldita reforma, precisava viajar, precisava conversar, precisava de alguém com quem dividisse aquela maldita reforma e a sua vida.

Aos poucos foi se reconstruindo tudo. Primeiro o piso, depois as paredes, as cerâmicas, uma a uma, encontrando seus lugares. O rejuntamento. A pintura. Os cortes, os encaixes, as quebras, as perdas, o barulho da maquita. Sua vida que se revolvida em meio à poeira. E aos poucos tudo foi ficando calmo e diferente. Alguém limpou a poeira, ela contratou alguém para limpar tudo. Aos poucos um dos serventes deixou de vir, depois o outro. Finalmente pagou o pedreiro, o pedreiro se foi deixando algumas pequenas coisas por terminar, mas deixava-a, devolvia sua solidão. Já não tinha mais festa, nem música, nem homem sem camisa em casa. E, aos poucos, chegaram os carpinteiros, mais barulho. Dessa vez guardou um copo em seu quarto. O seu copo. Levou água, trouxe para lá algumas frutas secas e biscoitos, vez um refúgio, estava preparada.

Aos poucos ficou tudo pronto e diferente. Então abateu-se-lhe um desconforto como se houvessem mexido em seus nervos, nos seus miolos. Não sabia mais os lugares, não encontrava mais os potes e as vasilhas, perdeu o ponto do café. Estava tudo bonito, mas ela ainda estava deslocada, não era mais o seu lugar, teve medo de não se adaptar e de ter perdido definitivamente a chance de ser aquela velha esquecida pelos móveis e por todo mundo, mas em paz. Perdeu a viagem e começaram a aparecer os detalhes, os massacrantes detalhes, prateleiras muito altas, outras muito baixas, onde bateu a cabeça, uma dor lancinante e aguda lhe fez esquecer, por um átimo, de tudo, até lembrar-se das cerâmicas desencontradas, uma poucas, em cima, no encontro do teto, ninguém daria atenção, mas ela sabia, ela via.

Chegava na cozinha e a primeira coisa que via era aquele espaço exagerado entre a cerâmica e forro. Nunca reparou no teto, mas agora era só entrar na cozinha e lá estava: também entre os móveis e o teto ficou um espaço, um vazio sem sentido, parecia imenso. O mesmo com o espelho do lavabo, logo o lavabo das visitas! Um espelho imenso, majestoso, um espelho perfeito, de cristal bisotado. Não encaixou, não se ajustou na parede entre o teto e a pedra de mármore, como ela tantas vezes não conseguira se ajustar. Na parte de baixo, ficou um pouquinho levantado, sacado da parece, forçado por algumas imperfeições que ela não sabia se eram do mármore ou da sua vida, ou foram da reforma. Alguém errou. Não ficou bom, definitivamente não ficou bom. Aquilo denunciava o erro, sua precipitação, sua falta de preparo, sua incompetência, sua solidão, era o seu vazio. Chamou de novo o carpinteiro. Chamaria também o vidraceiro, o pedreiro, chamaria até um engenheiro, chamaria um homem que pudesse consertar tudo aquilo. Exigiria o conserto sem custos. Não era admissível que o dinheiro e a viagem houvessem sido inutilmente perdidos, estava tudo imperfeito como antes. Novo, mas imperfeito. Ela continuava desalojada de si.

Fora de esquadro. Disse-lhe o carpinteiro. Fora de esquadro? A parede, senhora. A parede está fora de esquadro. É um problema da construção do prédio, se encosto de um lado, o espaço aparece do outro. Não posso consertar. Enquanto conversavam na cozinha, um estrépito agudo avisou que o espelhou quebrou-se no banheiro, não resistiu à pressão. Como assim? Ela perguntou. Fora de esquadro. Ele respondeu, como se fosse simples entender. Como minha vida, ela pensou. Fora de esquadro.


sábado, 1 de novembro de 2014

Alemanha Inusitada



A imagem que tenho da Alemanha era, e ainda é, a do lugar onde tudo funciona, onde as pessoas são altamente educadas, terra da Filosofia e da Música, primeira economia da Europa. O alemão é racional, detalhista, metódico e adora cerveja! Podem dizer que é uma gente fria, mas eles têm sensibilidade musical de Bach e, se alguém ouvir os Concertos de Brandemburgo prestando atenção, duvido que não se sinta tocado.

Contudo, algumas coisas me surpreenderam na Alemanha. Viajar, afinal, não é se deixar surpreender? Os alemães parecem bastante austeros, mas feiura nada tem a ver com austeridade. Tegel, em Berlim, é um aeroporto feio, como a dizer que não fazem gastos desnecessários. As pessoas andam muito de bicicleta e, quando estacionam, usam cadeados. Parece que furtam bicicletas por lá! Mas, muito provavelmente devolvem pertences perdidos. Perdemos a bolsa em um táxi: oitocentos euros, cartões de crédito, tudo. E a recuperamos! O taxista, cortesmente, levou sua mulher, que falava inglês, até o hotel e nos devolver a bolsa com um sorriso.

A Berliner Philarmoniker tem um edifício modernoso às margens do Tiergarten, ambulantes vendendo pretzels na entrada do concerto e todo mundo comendo pretzels na entrada do concerto, aquele pão enorme segurado por um pequeno guardanapo por pessoas vestindo ternos, tailleurs e sobretudos era como uma divertida nota dissonante. Providencial, estávamos com fome. Vinho e cerveja, só se vende lá dentro e tem que ser rápido, todo mundo animado, toca a sirene, aos seu lugares, o concerto vai começar.

Uma das vantagens de assistir uma orquestra ao vivo, com seus quase cem músicos, é que realmente prestamos atenção à música, nota por nota, compasso por compasso, os gestos do maestro e a resposta da orquestra. Also sprach Zarathustra nunca soou mais forte e o final, como um coração parando de bater aos poucos, mais significativo.




Visitamos o muro de Berlim ou o que restou dele, a East Side Gallery. Já era quase noite quando chegamos. Três ou quatro metros de altura, ainda bastante sólido, não parecia ameaçador mas guardava um ar sombrio ora atenuado ora realçado pelas pinturas com temas que retratavam a queda. Algumas pessoas fotografavam, outras simplesmente passeavas. Eu imaginei todos ali cantando The Wall, abraçando uns aos outros emocionados, ainda festejando a queda do muro e tudo que nos separa. Talvez aquelas pessoas imaginassem ou pensassem em algo parecido, mas ficaram surpresas quando me pus a dançar e a cantarolar.

Também há greves na Alemanha! Pegamos uma greve de trens. Tudo parado e a passagem que havíamos comprado para Dresden foi pro espaço. Alugamos um carro. O staff do hotel, muito atencioso, resolveu tudo. Devíamos pegar o carro no aeroporto. Ao chegarmos lá... surpresa! Não havia carro! Nada melhor que ser enganado ou, pelo menos, vítima de uma falha no agendamento de aluguel de um carro na Alemanha. Essa experiência com certeza é única. Devo dizer que já nos devolveram o dinheiro, mas tive que fazer uma reclamação quando cheguei no Brasil, não foi lá, assim na hora, de forma alemã.

Acabamos indo de ônibus para Dresden e eu, amarguradamente, deixei de conhecer as famosas autobahns alemãs, onde não há limite de velocidade. O ônibus é confortável e o motorista faz tudo: vende as passagens, acomoda as malas, fala ao microfone indicando a próxima parada e opera uns três aparelhos eletrônicos entre tablets e gps’s. A rodoviária é pior que a estação de trem que é pior que o aeroporto. Acho que essa gradação é universal. O ônibus para em todo lugar para pegar gente, mas todos vão confortavelmente sentados e os horários são cumpridos. Lembrei do pinga-pinga pra Quixadá, só que aqui muitas vezes eu ia em pé, um calor desgraçado.


 Dresden é uma cidade singular, absolutamente fantástica, linda. Talvez estivéssemos muito influenciados pelo céu absolutamente azul e o sol morno de uma tarde outonal que banhava em tons dourados os magníficos edifícios às margens do Elba. O Brühl`s Terrace deve ser um dos lugares mais lindos e agradáveis da Europa. Passear por lá me deu a sensação de ter entrado no sonho de alguém, o mundo real estava em outro lugar para além da cidade antiga. Dresden está para o séc. XVIII, como Florença e Veneza estão para o séc. XVI.

Voltando para o hotel à noite, perto da praça da catedral de Dresden, ouvimos o som de um canto lírico, um som distante, mas que era ouvido claramente pelo silêncio da noite. Eu pensava que os alemães eram mais respeitosos e silenciosos quando se tratava de volumes. Já era tarde para um vizinho ouvir ópera àquela altura. Chegando na praça percebemos, contudo, que era um casal de cantores líricos, elegantemente vestidos, que fazia sua apresentação na rua, em troca de gorjetas. Revezavam duetos e árias para o público que se juntava e se dispersava nos intervalos, quando eles bebiam água.


Assumimos nossa posição em um restaurante na praça antiga e ficamos assistindo ao espetáculo, de vez em quando questionando abobalhados se era mesmo a voz daquele casal que produzia aqueles sons cristalinos à uma distância de cinquenta metros. Não havia caixa de som. A catedral parecia ecoar as vozes e todo o conjunto arquitetônico servia como amplificador.

No dia seguinte, trem para Leipzig, onde assistimos a um concerto de órgão na Thomaskirche, a mesma igreja onde Bach regeu por 27 anos. Antes do concerto, uma aula do professor doutor bam-bam-bam de música da Universidade de Leipzig, chata e minudente como eu esperava que fosse uma aula alemã, pelo menos para quem não é capaz de entender as piadas que eu sabia, pelos risos da plateia, que ele de  vez enquanto contava. A música me decepcionou um pouco, eu esperava música barroca e o negócio parecia música moderna com tantos contrapontos, fugas, variações de escala e dissonâncias. Eu olhava para o programa incrédulo: era tudo música do século XVIII. Muito irado! Acho que Bach era um roqueiro do órgão.

Tocamos de trem para Bamberg, uma cidade medieval tombada pela Unesco onde existem cerca de dez cervejarias artesanais. Consegui experimentar duas. Bem que tentei degustar as demais, mas, como cada uma tem graduação alcóolica entre dez e doze por cento, tive mesmo que escolher entre beber e conhecer a cidade antiga. Na catedral de Bamberg está enterrado o papa Clemente II, e o casal de santos imperadores Henrique II e sua esposa Cunegundes. Bamberg é desses lugares que nos levam a pensar como era a vida na Idade Média, como naquela época, com aquele frio, o povo conseguia construir edifícios como o Monastério de São Michael e a Catedral de São Pedro e São Jorge.


 Das coisas mais interessantes quando se espera um trem na Alemanha é a precisão com que ele chega. Se o horário é 09:40, às 09:39 na plataforma só se enxergam os trilhos, até a curva mais próxima. De repente, chega o trem, exatamente às 09:40. Pois dessa vez, o trem para Würtzburg atrasou. Impagável o trem atrasar por mais de uma hora na Alemanha! A mesma tempestade que deixou todo o hotel sem luz na véspera e nos obrigou a dormir à lua de velas, bagunçou o horários de todos os trens. Trocamos as passagens e, depois de pegar o trem errado, fomos parar em Bad Staffelstein, uma instância termal de águas salgadas com uma estação perdida no meio do nada, ou melhor, no meio do frio. Chegamos em Frankfurt cinco horas depois, mas garanto que se perder nos trilhos alemães tem seus prazeres.

Para que a Alemanha não pareça mais alemã do que é, devo dizer que há mendigos em Berlim. Poucos, mas há. Em Frankfurt há mais. Uma mulher com uma criança nos pediu dinheiro dentro de uma Starbucks na Goethplatz. Outra, loira, olhos azuis, bem alemã, nos abordou em um café, dizia, em inglês, que tinha fome. A não ser pelos tênis muito velhos, pela calça de moletom cinza mais suja que o normal e uma certa agitação de quem tem vergonha, não se podia dizer que ela passava necessidade.



As margens do Meno são capazes de tirar qualquer um do corre-corre da cidade grande e abrir os olhos mais tensos às belezas do outono. O Städel Museum vale uma visita, aliás, vale muitas visitas. Não é o Louvre, não é o D’Orsay, mas tem seus encantos, um encanto de quem é austero até na hora de encantar. Frankfurt é cosmopolita, tem um colônia turca bem presente, alguns taxistas são imigrantes, como em Nova York e a catedral é linda, mas austera. Construída entre os séculos XIV e XV, lá se sagraram muitos dos imperadores romanos germânicos.

O suco de maça é simplesmente delicioso, vendido em todo lugar e de todas as formas, mas água de coco é melhor. Pena que não temos tecnologia, investimento ou vontade para fazer o mesmo com o caju. Uma repaginada na cajuína e ela venderia como água.


Resumo da ópera: a Alemanha é mais alemã que imaginava em algumas coisas e menos em outras. Há greves, mendigos e as pessoas receiam furtos de bicicletas, mas devolvem bolsas, sobretudo se houver dinheiro e documentos dentro. Os trens são bons e atrasam de vez em quando e você pode se ver sem o carro por cujo aluguel já havia pago. Lá não há cerveja ruim. Eu, pelo menos, não consegui encontrar. E olhe que procurei um bocado!