Escrever pode mudar tudo.


domingo, 27 de julho de 2014

João Mata-Vaca

João Mata-Vaca levantou-se, como em todos os dias, mais cedo que o sol. A luz entrava teimosa pelos buracos na taipa que aos poucos se desfazia, como se não quisesse passar pela frestas. João dormia de calças, só teve o trabalho de apertar o cinto. O chão de terra acomodava três dos cinco filhos, só os dois mais novos tinham rede. Trouxe a lenha. Ajeitou o fogo. A fumaça leitosa enchia a pequena casa de pau-a-pique e a tosse de Francisca, a terceira, quebrava o silêncio misturando-se aos sons dos bichos que acordavam. Daqui a pouco todos estariam de olho grelado. Por enquanto, só Antônia, a mais nova, mamava nos peitos secos da mãe sonâmbula e Manuel, o quarto, se entretinha com uma cuia de farinha seca e água, o nariz escorrendo esperava sua vez ao peito, mas não sobraria nenhum pingo de leite, só o consolo.

Abotoou a camisa rasgada que usava para a lida, colocou a palha ainda molhada do chapéu sobre a cabeça. Aquele era o seu cheiro, o cheiro de suor, o cheiro da palha quase podre, um cheiro ardido de entre pernas. Bebeu um copo d’água que tirou do pote direto com o caneco de alumínio amassado, um restinho escorreu pelo canto da boca, a barba por fazer. Tomou um café ralo em pé, no mesmo tibungo. Por fim, João Mata-Vaca virou, pegou a foice e saiu.

O sol pintava de vermelho as nuvens esparsas. As chinelas furadas deixavam que João sentisse o chão pedregoso nos pés rachados, aquela terra inerte que João machucava e que se vingava dele todos os dias, semanas, meses, até que, de tanto ele insistir, de tanto ele cavar, de tanto bater com a chibanca, de tanto esfolar as mãos e lascar as unhas, enfim caía água do céu e brotava um verde incerto e parco. João sempre pensava que se chovia pouco era porque ele fez pouco no derradeiro ano. Mata-Vaca era trabalhador e não esperava muita chuva para preparar o roçado. Para ele, era o trabalho que trazia a chuva, era lavrando que acordava a terra dura, a terra mulher seca, a terra dura que depois de molhada rompia em um cio macio e fértil.

A primeira mulher dele bebeu veneno, era fraca do juízo. Os quatro filhos da doida saíram pelo mundo. João sabia deles não. Às vezes chegava uma notícia. Ficaram longe. Rio. São Paulo. Sabia não. Sabia que tinha que escavacar a terra, lavrar. Vez por outra aparecia uma cerca para fazer e ele fazia, um gado para ferrar e ele ferrava, uma rês para buscar e ele ia. Não gostava mais da cachaça. Cansou. Quando bebia batia na mulher, os meninos choravam. Então, batia nos meninos também. Muita confusão, tinha mais idade não. A mulher, mesmo apanhando, dizia que ele só era valente dentro de casa, queria ver ele bater em homem, que o João era um bosta, um Mata-Vaca. De tão bêbado o João não conseguia bater muito, quase sempre a mulher e as crianças corriam para o juremal e só voltavam quando o João caia desacordado.

Estava quieto o João. Feliz com a segunda mulher, mulherzinha nova que não tinha onde morar e foi viver com ele. Dizia o povo que ela fazia a vida pelo Carrascal. João não ligava, fosse atentar para tudo que diziam ia ficar doido e morrer como a primeira mulher. A mulherzinha estava ali, cuidava dos meninos, fazia o de comer. Emprenhou ligeiro, depois outro e outro e mais outro. Os meninos eram a cara dele e não se falou mais na vida do Carrascal. Estava bom. João gostava dos pequenos, ria deles aprendendo a andar. Quando João se acocorava na boca da noite para enrolar o cigarro de palha, deixava o mais velho lamber o papel e, às vezes, apertar o fumo. Os meninos ficavam perto olhando a fumaça que João soltava pelas narinas largas e, quando começavam a chorar por qualquer motivo, João espantava eles com uma abanada de braço, sem se levantar, como quem espanta mosca. Espalmava a manzorra onde batesse, nas costas, no rosto, nas pernas, e um menino saia chorando com os dedos de João impressos vermelhos na pele seca.

Hoje o Mata-Vaca ia fazer um serviço de cerca pro coronel Hermógenes. Quando chegou no sítio, o Abílio, feitor do coronel, estava escorado na cerca, cigarro no bico, a barriga escorrendo pelo cós da calça. A catinga de álcool dava um cheiro ardido em volta. Gritou pro João:

- Mata-Vaca, filha da puta, passa aqui por baixo da cerca, ligeirinho, negro velho! O coronel quer o serviço terminado hoje!
Mata-Vaca prontamente se abaixou, arrastando-se pelo chão, quase lambendo o couro sujo de esterco das botas do Abílio, que não teve a decência de se afastar. Encostou a foice e começou o serviço. Ia cavando com o pé de cabra, enquanto os outros enfiavam as estacas e encalcavam a terra. João tinha olho bom, deixava os paus linheiros como ninguém, era dele, nasceu assim, ninguém o ensinou, batia o mesmo espaço entre as estacas e os mourões. João era calado, não conversava, produzia bem. E o Abílio ficava gracejando, puxando conversa, insultando com um e com outro, reclamando do serviço.

- João, seu corno, eu comi muito aquela tua mulherzinha, na época do Carrascal! - Abílio ria sarcástico, os peões troçavam e o João calado, parecia que não era com ele, o mesmo olhar vago, o suor escorrendo pelo rosto enquanto os braços finos e rijos, quase esqueléticos, subiam e desciam cavando mais um buraco, a expressão perdida no subir e descer do ferro, a terra dura que aos poucos de abria.

- Traz o mourão, Zé Coxa! – Era o João chamando.

O Mata-Vaca parecia não escutar e seguia cavando um buraco depois do outro.

- Era até gostosa aquela mulherzinha, mas tu pegou só o resto, Mata-Vaca! Já estava sambada. - O Abílio arquejava encostado em um mourão, suando álcool.

João Mata-Vaca pegou a foice para aparar a ponta do mourão.

- Segura, Zé!

A foice desceu com força no pescoço de Abílio, pegou meio enviesado, a ponta da lâmina recurvada rasgou-lhe também o beiço. O sangue esguichou em cima do João e do Zé Coxa. O corpanzil de Abílio caiu pesado se debatendo, os olhos se revirando, aos poucos aquela massa de carne foi se acalmando, se acalmando, só a perna tremia, o pé num último estertor, mais nada, o sangue encarnado quase preto encharcando a terra seca. João já tinha matado de pau, nunca de foice. Mas só bicho.

Tudo se fez silêncio, os peões olhavam aterrados, mas os barulhos da mata eram os mesmos, uma rolinha cascavel piava ao longe, o som cortando com dificuldade o ar doce e pesado feito ferro. João, com o mesmo olhar perdido, os braços trêmulos caídos, fitava a massa de carne que era Abílio, um cheiro doce de ferro e álcool impregnou tudo em volta, o sangue molhando seus pés, grudando nos seus dedos, não sabia porque tinha feito aquilo. A primeira coisa que pensou foi no seu nome: João Mata-Vaca.


Tudo que queria era estar acocorado no terreiro de casa e acender um cigarro de palha.

sábado, 3 de maio de 2014

O Presente


Faltavam cinco minutos para o meio-dia quando o celular tocou.
- Alô.
- Lola, Manuel. Poderíamos almoçar na Monsenhor Tabosa? Estou cá a fazer umas compras. Havíamos combinado no Shopping, mas como cá já estou...
Era o primeiro encontro deles. Conheceram-se na internet, amizade nem tão improvável entre uma brasileira e um português. Outros dois patrícios já haviam passado pelos seus lençóis, cada um deixando suas marcas. Cicatrizes que não doíam mais. Não podia negar que não estivesse ansiosa. Já o conhecia de fotos, sabia que ele tinha três filhos do primeiro casamento e um pouco mais de cinqüenta anos, sabia dos seus cabelos grisalhos e até da sua barriga pronunciada. Dividiam uma certa intimidade que, como ela já experienciara, inexplicavelmente desaparece com o encontro pessoal. Estar com alguém é diferente. Há sempre um jeito de olhar, um movimento de ombros, um jeito de posicionar os dedos, o abrir e fechar da boca que é capaz de dizer muito mais que as mensagens eletrônicas. E tanto quanto revela, oculta.
- Por mim tudo bem. Onde você está?
Concordou a contragosto. Já estava a meio caminho do Shopping Center, seria preciso voltar. Gasolina cara, carro sem ar-condicionado e o calorão do Ceará. Além disso, convenhamos, a Monsenhor Tabosa não era lugar para um primeiro encontro. Aquele apinhado de lojas sem qualquer sofisticação, aquela gente suada, aquele sol que não dava trégua.
Aos trinta e nove anos Lola pensava na vida como uma sucessão de dias, alguns bons, outros ruins. Não esperava muito, não fazia planos, se contentava com os pequenos prazeres do dia-a-dia: a novela da noite, o chope da sexta-feira, os amores das amigas, a balada no fim-de-semana. Mas, como uma adolescente, ainda sonhava com o príncipe encantado. Idealizava-o perfeito, alto, másculo, forte, rico, muito além das possibilidades do real, conquanto já houvesse, há algum tempo, dispensado o cavalo branco. Reservava para o amor todos os seus anseios e sonhos, tudo que a aridez do dia-a-dia não lhe era capaz de dar. E ali estava ela novamente, um frêmito diante do desconhecido, outra chance. Talvez desta vez. Seria o Manuel?
Encontrou-o de pé debaixo de uma palmeira. Refestelando-se sob o mesmo sol que aqueceu o sonho de seus antepassados quinhentos anos atrás, esperava sua índia, sua Iracema. Seus ossos ainda traziam o cinza do inverno português, que esperava expurgar nos seios daquela brasileirinha. Estava quase feliz, quase contente de almoçar com uma mulher mais jovem, com quem poderia compartilhar alguns bons momentos durante sua estadia. Fariam um almoço rápido, depois algumas compras sob o sol, sempre sob o sol, queria o sol, queria o calor dos braços e pernas brasileiras, nada podia ser mais revigorante. Quando a viu, ela lhe pareceu um pouco mais velha que nas fotos, um pouco mais sem graça. Talvez o uniforme do trabalho, o suor que lhe desmanchava a maquiagem. Ofereceu um sorriso cortês, quase entusiasmado.
Ela estava um pouco sarapantada. O calor, o sutiã que lhe apertava, o ruge-ruge de gente, ambulantes pelas calçadas, a buzina dos carros, como poderia mergulhar no momento? Ele lhe pareceu patético segurando os pacotes à sombra da palmeira, a camisa encharcada de suor. Almoçaram em um restaurante simples e quente. Um self-service simples demais, na verdade. Uma refeição mais demorada e formal do que ele gostaria, mais barata e deselegante do que ela sonhara. Falaram sobre o tempo, a cidade, a viagem. Tudo o mais ficou para o jantar, ela precisava voltar para o trabalho. Atender telefonemas, receber pessoas, marcar e desmarcar reuniões, enviar comunicados; o secretariado tem dessas desvantagens, lhe faz imprescindível no local de trabalho. Não podia simplesmente dar ordens, resolver pelo telefone ou pela internet, ela recebia ordens.
À noite foi sushi e sashimi. Era um restaurante japonês charmoso e bem decorado, iluminado à meia luz, este sim, digno de um primeiro encontro. Comeram devagar, bebiam vinho. A textura macia do salmão e o leve torpor do vinho envolviam-na em uma atmosfera sensual e lassa, de repente sentia-se uma fêmea completamente dona de si. Ninguém poderia lhe fazer crer naquele momento que o príncipe encantado não existisse.
- Prometa que não será um cafajeste comigo – Ela pediu.
Lola pensou que talvez enxergasse melhor à noite. Ele era, sem dúvida, muitíssimo delicado, nada de patético. Seus cabelos grisalhos transmitiam segurança. Apesar da barriga protuberante, seus braços ainda eram bem fortes. Cuidaria dos filhos dele, não lhe parecia uma má idéia morar em Portugal.
Depois da sobremesa ele fez aparecer um lindo presente. O pacote dourado amarrado com laço de fita fez brilhar os olhos de Lola. Era um presente especial. Não se podia fazer um embrulho assim em Fortaleza. Ele o trouxera da Europa, sem dúvida. Mais um pouco e teria ficado embaraçada. Retirou a fita com cuidado e rasgou o papel em um estrépito grave. Desde criança acreditava que lhe dava muita sorte rasgar os papéis de presente. Descortinou-se uma linda caixa de cetim azul. Uma jóia? Já uma joia!? Abriu-a.
Um porta-perfume de louça com o brasão de Portugal. Procurava entender... Tentava concatenar as idéia e disfarçar o desapontamento.
- Muito obrigada, Manuel... – gaguejou – Você é muito delicado...
Manuel deliciava-se com o brilho dos olhos de Lola, sua surpresa, sua ansiedade, a sofreguidão mal disfarçada com que abriu o presente. O porta-perfume que havia sido de sua tia Amélia, havia tido seu efeito. Era uma peça de toucador linda, antiga, valiosa, como não se via no Brasil, como não se vendia mais: uma relíquia. Podia ter certeza que a conquistara e que a noite e a estadia no Brasil seriam maravilhosas, emaranhando-se em calorosos braços e pernas brasileiras. Lola sorria lânguida, não recusou quando Manuel segurou suas mãos com um olhar vitorioso, certo de que a havia subjugado. Ele apertava de um jeito inconveniente a junção de seus dedos com as palmas das mãos. Finalmente foram para o hotel, no carro dela.
Tinha a forma de um falo. Um falo branco, bojudo e liso, com uma tampa que parecia uma cúpula bizantina, circundada por uma linha dourada. Meu Deus, por que um porta-perfume? Por que tão ricamente embalado? Não se embala assim um presente tão inexpressivo. Era injusto com ela. O papel dourado lhe permitira sonhar com um príncipe, com um amor de verdade. De que lhe serviria, afinal, um porta-perfume de toucador? Ela era uma mulher moderna. Não tinha ainda quarenta anos. Daria, pelo menos, para carregá-lo na bolsa? Impossível sem derramar o perfume. Podia sentir o cheiro das irmãs francesas dele, as duas na casa dos setenta.
- Não vai subir? Vamos tomar alguma coisa. Quem sabe conversamos um pouco mais... – Disse ele utilizando-se de todo seu poder de persuasão.
- Estou um pouco cansada, Manuel. – Foi o que Lola conseguiu dizer. Mandou-lhe um beijo que foi da boca pelos dedos desfazendo-se em um aceno.
O encanto se desfez. Deitou-se sozinha em casa, o travesseiro entre as pernas. Custou a dormir. Um porta-perfume!? De louça!?


sábado, 8 de março de 2014

Conversa com o lixeiro - Carlos Drummond de Andrade

Acabou a greve dos garis no Rio de Janeiro. Lembrei-me dos grandes Carlos Drummond de Andrade e Paulo Autran.





Razão de Ser, Leminskin

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?


Leminskin

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Sobre Livros e Rios

Há um ditado que diz que há somente duas coisas certas na vida: a primeira é que morreremos, a segunda é que não sabemos quando. 
Quanto a mim, poderia acrescentar mais duas certezas: morrerei sem ter lido todos os livros que gostaria e, a essa altura, terei esquecido quase tudo do que um dia haverei lido, esquecerei mesmo o pouco que terei escrito. 
Espanto.
Gosto de pensar nos livros como rios que escorrem por nós e nos deixam marcas como a um leito, nos trazem sedimentos e nos carregam aluviões. Impressões que se sobrepõem de modo a não sabermos mais qual chuva nos deixou qual marca ou nos trouxe qual seixo. No final, somos esculpidos, lavrados, varridos e nos tornamos férteis.
Mas, se tudo é tão fugaz e, a um só tempo, infinito, por que não nos cansamos de buscar respostas, contar e recontar as mesmas histórias, comprar livros que nunca serão lidos? Porque é isso que nos faz humanos, é isso que nos consola e nos põe em contato com os outros. Assim nos reconhecemos e sabemos que não estamos sozinhos nesta busca fantástica que é a vida.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

O Natal Vem Vindo

O Natal vem vindo como o comercial da coca-cola, uma música alegre, muitas luzes, cores e, aos poucos, nos empurra para o lado, nos desloca um pouco fora de nós mesmos enquanto observamos felizes as luzinhas ou observamos as luzinhas felizes, a decoração, as árvores, os enfeites.

Procuramos nossos pais, irmãos, tios, primos, os amigos distantes e os mais próximos, os colegas de trabalho, renovamos aqueles velhos e repetidos votos desbotados como uma maneira de reafirmar para os outros nossa mais genuína felicidade, sim, somos felizes e gratos. Lembramos de todas as pessoas que não serão lembradas até o final do dia porque mesmo esse dia é curto para lembrar de tanta gente e nos invade um medo difuso e sermos também esquecidos e de magoá-las e nos esforçamos ao máximo para ligar para todos, uma mensagem, um olá, um “feliz natal”, qualquer coisa que diga para o outro que sim, nós estamos aqui e nos importamos.

É Natal, estamos todos felizes e queremos proclamar isso, sobretudo no facebook, e não queremos dar para nós mesmo a impressão de que esquecemos ou de que não nos importamos, afinal é só hoje, é hoje que precisamos lembrar, é hoje que não podemos esquecer ninguém, os presentes, um chocolate pelo menos, o amigo-secreto doce para não passar em branco.

Temos medo de passarmos em branco sem dizer para os outros que somos felizes e que nos importamos com a felicidade deles ainda que não nos importemos tanto assim, ou apenas na medida em que se importar nos torna mais felizes. E já não acreditamos mais em Papai Noel, nem na história do menino que nasceu há dois mil anos esquecido em uma manjedoura, no meio dos bichos, ainda que haja tantos meninos esquecidos ainda hoje. E só agora, justo hoje, nos lembramos das cestas que pretendíamos distribuir, mas o corre-corre diário nos impediu, impediu não, adiou, preferimos pensar que apenas adiou.

E, por favor, que hoje a televisão não nos venha com notícias tenebrosas de assaltos, chacinas e meninos que nasceram esquecidos, pois ainda temos que assar um peru, gelar um vinho, melhor dois ou três, pode ser que apareça mais alguém. Sempre aparece mais alguém na noite de Natal e como é bom acreditar que se importam conosco e que estarão ao nosso lado nos guiando como a estrela guiou os três reis magos para ver o menino que nasceu meio esquecido mas se tornou rei.

Finalmente, vamos dormir meio embriagados, meio desapontados. Como passou rápido! Chegamos a pensar que queríamos mais tempo para nos importar mais, para sermos mais felizes, para distribuir mais atenção e presentes e sorrisos, mas há sempre o que fazer, além disso a rotina nos dá mais segurança, e adormeceremos pensando na estrela que guiou os três reis e que está em algum lugar perdida no meio de tantas luzinhas piscando e pensamos no menino e como estava quieto e calmo o estábulo naquela noite de Natal e como todos estavam felizes e, de repente, tudo que queríamos era estar também naquele estábulo, mas alguma coisa nos empurrou para fora de nós mesmos.


domingo, 8 de dezembro de 2013

Henri Le Boursicaud

Nunca pensei que poderia encontrar Henri Le Boursicaud ali na praça onde caminho. Logo na primeira volta percebi que era ele: velhinho, barba branca, costas curvadas. Estava sentado sob a tenda do Emaús, recebendo doações juntamente com o Airton Barreto, um advogado cearense que mora no Pirambu e tem uma vida de trabalho dedicado aos pobres.

Dei mais algumas voltas, não sabia como abordá-lo. Caminhava com a Trycia e o Paulo. Não queria interromper o exercício, mas tinha medo que ele fosse embora. Não queria falar com ele rapidamente, um cumprimento aligeirado, e depois voltar a caminhar, queria estar com ele por um tempo. Havia mais alguém com eles, uma certa agitaçã, queria mais privacidade. Esperei. Mais uma volta. Mais outra.

Henri Le Boursicaud, o padre redentorista, considerado por muitos um louco, por outros um profeta; o padre que aos 45 anos fez a opção pelos pobres e fundou o Emaús Liberté, uma vertente de proposta mais radical que o Emaús International de Abbé Pierré; o velho que fala verdades duras com os olhos faiscantes: já disse diversas que a Igreja Católica, tal qual a conhecemos, irá acabar e se transformará em uma comunidade de comunidades; o francês bretão que, contra as ordens de seu governo, foi ao Iraque, durante a guerra de 2003, para apoiar os iranianos refugiados; o homem que, aos 75 anos, percorreu 1.500km, de Paris a Roma, a pé, para pedir reformas a João Paulo II. Estava ali.



Agora, ficaram só os dois. De vez em quando, Airton afastava-se um pouco para atender alguém que, de dentro do carro, entregava suas doações. Era a minha vez. Aproximei-me, cumprimentei o Airton, que já conhecia, de modo caloroso, e me dirigi ao Pe. Henri.

- Pe. Henri, vim aqui lhe prestar minha homenagem! Sorri. Apertei suas mãos macias olhando bem no fundo de seus olhos azuis emoldurados por um rosto de pele rósea e lisa. Aos noventa e quatro anos, as mãos trêmulas, seu olhar vivo, sua pele vermelha, seu nariz fino, sua barba branca, tudo nele resplandecia à juventude. Ele mal falava, mas parecia me entender. Agarrou meu braço com firmeza parecendo indicar a cadeira ao lado. Sentei-me.

Fiquei ali com ele, tentando captar o que ele diria, esperando uma palavra, um ensinamento. E ele calado, presente, olhava atento. Falávamos entre nós, Airton, eu, Trycia, Paulo. Criei coragem:

- E a oração, Pe. Henri?

- É o motor. O homem não faz nada sem a oração. A oração consiste em reconhecermos a todo instante que tudo que nos acontece é um presente amoroso de Deus.

- E o mais importante? Diga para ele o que é o mais importante. Airton interveio quase gritando para que ele ouvisse.

- Justiça! Não há amor sem justiça. Justiça! Ele bradava com uma energia que pensei ser característica dos bretões de sua estirpe ou muito própria do Espírito Santo. Os olhos arregalados. Uma rispidez e seriedade que, de repente, explodiam em um sorriso.

- Deus jamais se repete! – Apontou para mim com o olhar mais inquisitivo que acusador. Enérgico.

- Você é único! Você é única! – Apontava para Trycia – Nunca houve outro igual a você nem jamais haverá. Só você pode fazer e falar o que lhe é dado fazer e falar, por isso nunca se omita em defesa da Justiça!


Ficamos calados. Suas palavras ecoavam e, aos poucos, silenciavam sob o barulho da cidade e o canto dos pássaros. Em dado momento, me mostrou, em um de seus livros, uma foto de sua família. Sorriu um riso espontâneo, largo, quando lembrou o fato de que a mãe estava sentada e o pai em pé, na foto, para disfarçar a diferença de altura: o pai tinha 1,80m, a mãe era mignon. Trocava o português pelo francês, o francês pelo português, ia e voltava com o mesmo sotaque. Falou da morte da mãe, uma pequena bretã, firme, enérgica e teimosa, como ele, falou do pai, prisioneiro na Grande Guerra, e dos irmãos, falou do seminário onde foi morar aos 11 anos, da vontade de voltar para casa, da persistência. O dedo indicador tremia sobre a foto. Por fim, disse:

- Tous sont morts. Sorriu.

Fiquei mais um pouco. Estive ali com Henri Le Boursicaud. Depois me despedi, caminhei para casa pensando na Iracema e nos outros mendigos que vivem pela praça e em quantas vezes somos gentis com eles para não precisarmos ser justos, em quantas vezes doamos ao Emaús e a outras instituições de caridade para aliviarmos a consciência e não precisarmos pensar da maldita injustiça.



Curva

Linhas sinuosas
Caminhos sinuosos
Vidas sinuosas
Como tuas curvas sinuosas

Pensamentos sinuosos
Que se embaraçam
Em teus longos
Cabelos negros

A menor distância entre nós dois:
Uma curva
Por que não chego?

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Navegar é preciso

Navegar é preciso,
Viver não é preciso.
É visceral navegar e amar,
O agitado mar da vida desbravar.
E quando a morte chegar,
Numa enorme vaga escondida,
Que jubiloso será
Perecer n’alto mar,
Entre as vagas bravias,
No maravilhoso explorar.

Afaste-se de nós, portanto,
Todo porto seguro,
Todo temor do escuro.
Pois tu já não sabes
Quão impreciso é viver?
Qualquer recurso de guia
A nau da vida não nos dá
Astrolábios, mapas, uma só melodia.

Por isso, amigo,
Não calcula, não faz planos.
Antes te deixa levar
Pelo balanço do mar
Pois jamais saberás
Quando e aonde chegar.

Volta-te para as estrelas
Em tu’alma escondidas
Elas que mudam de lugar
Que são tão coloridas,
Por vezes impossíveis de achar,
Com sua dança imprecisa,
São que te podem guiar.


Nagibe Jorge

domingo, 8 de setembro de 2013

Ler Devagar

"Para aprender a ler é preciso ler bem devagar, e em seguida é preciso ler bem devagar e, sempre, até o último livro que terá a honra de ser lido por você, será preciso ler bem devagar. É preciso ler devagar um livro tanto para desfrutar dele quanto para se instruir ou para criticá-lo.
[...]
Você me dirá que há livros que não podem ser lidos devagar, que não suportam a leitura lenta. E os há, de fato, mas esses são os livros que não é preciso ler em absoluto."

Émile Faguet (1847-1916)