Hoje choveu um mar.
No fim da tarde,
Tudo estava molhado e quieto,
Mas o céu plúmbeo imenso
Coberto de nuvens ainda
Ameaçava chover
Uma cigarrazinha aqui,
Outra acolá denunciavam
O silêncio e a ressaca do mato.
O verde acordava na cinza pedra
O cimento molhado,
O cachorro molhado,
As abelhas molhadas.
Minha alma encharcada,
Molhada e muda
Não precisou chorar.
Nagibe de Melo Jorge Neto
Mossoró, 10.01.2011
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
Chora Bianca
E esse aqui é o poema que fiz para a Bia:
Chora a Bianca
Que nasceu miúda
Mas tão valente!
Que me arrebatou de um jeito
Incontido, incoerente
Chora, Bianca
Que quando, pela primeira vez,
Te peguei no colo,
Também me fizeste chorar
De tanto contentamento.
Chora a princesa
Que fez nascer em mim
Este amor bem grande,
Inconseqüente.
Chora essa cólica,
Não te incomodes,
Que alegre te acalento,
Eu te balanço e te amamento.
Chora, Bianca
Que um dia chorarás
As dores de outros amores
Umas que doem bem diferente.
E quando esse dia chegar
Poderei eu, ainda, te acalentar?
Nagibe de Melo Jorge Neto
Fort., 27.02.07
Chora a Bianca
Que nasceu miúda
Mas tão valente!
Que me arrebatou de um jeito
Incontido, incoerente
Chora, Bianca
Que quando, pela primeira vez,
Te peguei no colo,
Também me fizeste chorar
De tanto contentamento.
Chora a princesa
Que fez nascer em mim
Este amor bem grande,
Inconseqüente.
Chora essa cólica,
Não te incomodes,
Que alegre te acalento,
Eu te balanço e te amamento.
Chora, Bianca
Que um dia chorarás
As dores de outros amores
Umas que doem bem diferente.
E quando esse dia chegar
Poderei eu, ainda, te acalentar?
Nagibe de Melo Jorge Neto
Fort., 27.02.07
O Astronauta
Eis o primeiro poema da minha Bianca, que tem 9 anos. Fiquei meio orgulhoso, já pensaram se ela toma gosto? :)
O astronauta viajou, viajou
E finalmente chegou
Num planeta diferente
Onde tudo era quente
Era Marte esse planeta
Que dá pra ver com a luneta
O austronauta não gostou
Ficou tão furioso que voltou
E quando chegou disse:
- Graças à Deus meu Senhor
O astronauta nunca mais viajou.
Bianca Carneiro de Melo Jorge
Fort., 03.09.2010
O astronauta viajou, viajou
E finalmente chegou
Num planeta diferente
Onde tudo era quente
Era Marte esse planeta
Que dá pra ver com a luneta
O austronauta não gostou
Ficou tão furioso que voltou
E quando chegou disse:
- Graças à Deus meu Senhor
O astronauta nunca mais viajou.
Bianca Carneiro de Melo Jorge
Fort., 03.09.2010
sábado, 14 de agosto de 2010
Traduzir-se
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?
Ferrira Gullar
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?
Ferrira Gullar
Vitor Luís Gomes Vieira
O Vitor Luís é um poeta extremamente talentoso, tem apenas 16 anos, mas olhem só a profundidade de seus poemas:
Movimentos e Descansos
Prolonga-se o equilíbrio
De persistir
Em meio a risos e lágrimas
Alegrias e tristezas
Nesse atiçar de interexistências
Entre fluxos de vidas e mortes
Que quando se encontram revelam
Eternidades percorridas
Entre sacrifícios e sortes
(in: Desvios do Monótono. Fortaleza: Expressão Gráfica Editora, 2009. p. 42)
Movimentos e Descansos
Prolonga-se o equilíbrio
De persistir
Em meio a risos e lágrimas
Alegrias e tristezas
Nesse atiçar de interexistências
Entre fluxos de vidas e mortes
Que quando se encontram revelam
Eternidades percorridas
Entre sacrifícios e sortes
(in: Desvios do Monótono. Fortaleza: Expressão Gráfica Editora, 2009. p. 42)
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
Tauá
Um solzinho
Rasteiro e fino
Bate à socapa na serra
O Quinamuiú não revida,
Agradece
Parece sorrir
Solerte
Tauá acorda contido
Fora do tempo esquecido
O leiteiro vai
O vaqueiro vem
As mulheres ficam
Então me lembro
De um tempo sem tempo
Fora do tempo faz tempo
Um tempo doce,
Tépido, maneiro
Uma brisa seca
Um tempo que passou ligeiro
Umas bicicletas
Uma praça
Muitas crianças
Uma algazarra alada
Com as fadas...
Oh, tempo matreiro!
Nagibe de Melo Jorge Neto
Rasteiro e fino
Bate à socapa na serra
O Quinamuiú não revida,
Agradece
Parece sorrir
Solerte
Tauá acorda contido
Fora do tempo esquecido
O leiteiro vai
O vaqueiro vem
As mulheres ficam
Então me lembro
De um tempo sem tempo
Fora do tempo faz tempo
Um tempo doce,
Tépido, maneiro
Uma brisa seca
Um tempo que passou ligeiro
Umas bicicletas
Uma praça
Muitas crianças
Uma algazarra alada
Com as fadas...
Oh, tempo matreiro!
Nagibe de Melo Jorge Neto
segunda-feira, 26 de julho de 2010
O Leitor
Acabei de ler O Leitor, de Bernhard Schlink. Bom livro, comovente. Não é grande literatura, o livro cresce a partir do meio. Do meio pro fim, o autor consegue criar belas frases, imagens profundamente impactantes, ainda ou porque singelas. Em algumas partes, no início, chega a ser tosco. Mas a trama como um todo é rica, complexamente humana e comovente. O autor deveria ter aprofundado alguns temas, mas optou por um distanciamento que lhe poupou talento e produziu um grande efeito. Livros assim produzem em mim a sensação de que eu seria capaz de escrever um bom livro mesmo sem ser um grande escritor. Nesse caso, mais ainda, porque o autor é juiz e professor de Direito e Filosofia.
Chamou-me a atenção no livro, como sói acontecer em muitas novelas, a individualidade do narrador. O narrador é alguém que não presta contas a não ser a si mesmo. Distante da filha, distante do pai, que era distante dele. Vive boa parte do tempo recolhido em sua interioridade. É o supremo condutor do seu destino. Não sei se esse traço é mais forte por se tratar de um autor alemão. Os alemães sempre me pareceram muito senhores de si.
O livro passa a mensagem de que só podemos viver plenamente nosso mundo interior quando vivemos completamente nossa individualidade, o que é muito complicado para nós latinos que temos nossas vidas tão misturadas com as de nossos pais, irmãos, filhos e amigos. Além disso, nunca podemos completamente conhecer o outro, ainda que o amemos. Essa interioridade escondida na individualidade é sempre solitária e impede o acesso do outro.
O amor é, então, retratado como a compreensão do outro, uma compreensão que nunca se esgota. Porque somos infinitos em nossa complexidade e em nossos motivos, o amor, a compreensão do outro, precisa ser igualmente infinito. A compreensão, porque deriva do amor, exclui o julgamento; é isso que o autor nos diz em uma das passagens mais belas no livro:
“Queria, ao mesmo tempo, compreender e julgar o crime de Hanna. Mas era algo terrível demais para isso. Quando tentava compreendê-lo, tinha a sensação de não julgá-lo como deveria. Quando o julgava como cabia julgá-lo, não havia lugar para a compreensão”. (p. 173)
A tradição judaico-cristã, há muito compreendeu essa dicotomia entre o amor e o julgamento. O Deus do Velho Testamento é o Deus do Juízo Final, mas o Deus do Novo Testamento é o Deus compassivo que não julga aqueles que ama. Na verdade, Deus é o mesmo, já no Velho Testamento é Ele quem enuncia:
“Não quero sacrifícios, misericórdia quero”
No Novo Testamento é seu Filho quem virá, no último dia, para julgar os vivos e os mortos. Em verdade, talvez Deus seja a conciliação perfeita entre esses dois inconciliáveis: amor e julgamento, misericórdia e justiça, pois é em Deus que todos os opostos se conciliam na perfeição da caritas.
O Direito é uma carreira que envolve julgamento e o julgamento, para ser justo, deve sempre ser feito com compreensão, com amor. Quando não atentam para isso, os operadores do Direito correm o risco de empobrecer sua decisão e reduzir a complexidade de tudo quanto é humano. Bernhard Schilink expressa assim esse risco:
“Não me sentia bem em nenhum dos papéis que vira os juristas exercendo no processo contra Hanna. A acusação me parecia uma simplificação tão grotesca quanto a defesa, e ser juiz era, entre as simplificações, certamente a mais grotesca de todas”. (p. 197)
Até que nos venha o amor estaremos, pois, sozinhos em nossas decisões, em nossos julgamentos e, com certeza, em nossos sofrimentos mais profundos. Mesmo assim, em alguns casos, é a vivência dessa individualidade que nos salva e dá sentido à nossa vida, quando nela, por meio dela ou apesar dela nos abrimos para o amor.
Fort, 30.03.2009
Nagibe de Melo Jorge
Chamou-me a atenção no livro, como sói acontecer em muitas novelas, a individualidade do narrador. O narrador é alguém que não presta contas a não ser a si mesmo. Distante da filha, distante do pai, que era distante dele. Vive boa parte do tempo recolhido em sua interioridade. É o supremo condutor do seu destino. Não sei se esse traço é mais forte por se tratar de um autor alemão. Os alemães sempre me pareceram muito senhores de si.
O livro passa a mensagem de que só podemos viver plenamente nosso mundo interior quando vivemos completamente nossa individualidade, o que é muito complicado para nós latinos que temos nossas vidas tão misturadas com as de nossos pais, irmãos, filhos e amigos. Além disso, nunca podemos completamente conhecer o outro, ainda que o amemos. Essa interioridade escondida na individualidade é sempre solitária e impede o acesso do outro.
O amor é, então, retratado como a compreensão do outro, uma compreensão que nunca se esgota. Porque somos infinitos em nossa complexidade e em nossos motivos, o amor, a compreensão do outro, precisa ser igualmente infinito. A compreensão, porque deriva do amor, exclui o julgamento; é isso que o autor nos diz em uma das passagens mais belas no livro:
“Queria, ao mesmo tempo, compreender e julgar o crime de Hanna. Mas era algo terrível demais para isso. Quando tentava compreendê-lo, tinha a sensação de não julgá-lo como deveria. Quando o julgava como cabia julgá-lo, não havia lugar para a compreensão”. (p. 173)
A tradição judaico-cristã, há muito compreendeu essa dicotomia entre o amor e o julgamento. O Deus do Velho Testamento é o Deus do Juízo Final, mas o Deus do Novo Testamento é o Deus compassivo que não julga aqueles que ama. Na verdade, Deus é o mesmo, já no Velho Testamento é Ele quem enuncia:
“Não quero sacrifícios, misericórdia quero”
No Novo Testamento é seu Filho quem virá, no último dia, para julgar os vivos e os mortos. Em verdade, talvez Deus seja a conciliação perfeita entre esses dois inconciliáveis: amor e julgamento, misericórdia e justiça, pois é em Deus que todos os opostos se conciliam na perfeição da caritas.
O Direito é uma carreira que envolve julgamento e o julgamento, para ser justo, deve sempre ser feito com compreensão, com amor. Quando não atentam para isso, os operadores do Direito correm o risco de empobrecer sua decisão e reduzir a complexidade de tudo quanto é humano. Bernhard Schilink expressa assim esse risco:
“Não me sentia bem em nenhum dos papéis que vira os juristas exercendo no processo contra Hanna. A acusação me parecia uma simplificação tão grotesca quanto a defesa, e ser juiz era, entre as simplificações, certamente a mais grotesca de todas”. (p. 197)
Até que nos venha o amor estaremos, pois, sozinhos em nossas decisões, em nossos julgamentos e, com certeza, em nossos sofrimentos mais profundos. Mesmo assim, em alguns casos, é a vivência dessa individualidade que nos salva e dá sentido à nossa vida, quando nela, por meio dela ou apesar dela nos abrimos para o amor.
Fort, 30.03.2009
Nagibe de Melo Jorge
quarta-feira, 21 de julho de 2010
Vida
A vida são essas alegrias
Entremeadas de enxaquecas,
Essa luta renhida com Deus,
Esse desejo que não cessa de desejar,
Esse desconsolo, esse abandono,
Essa procura.
A vida é uma fé que se renova sempre,
Eis que a vida sem fé não é vida
Senão morte não morrida.
É um clamor que se quer fazer escutar
E não se cansa de clamar.
É uma dor que não quer doer,
Mas dói pra ter prazer.
É o despautério de desafiar o próprio Deus
Para se ver envolvido em Seus braços.
É a vontade de morrer de viver...
Sempre.
Nagibe de Melo Jorge Neto
Fort, 26.01.2006
Entremeadas de enxaquecas,
Essa luta renhida com Deus,
Esse desejo que não cessa de desejar,
Esse desconsolo, esse abandono,
Essa procura.
A vida é uma fé que se renova sempre,
Eis que a vida sem fé não é vida
Senão morte não morrida.
É um clamor que se quer fazer escutar
E não se cansa de clamar.
É uma dor que não quer doer,
Mas dói pra ter prazer.
É o despautério de desafiar o próprio Deus
Para se ver envolvido em Seus braços.
É a vontade de morrer de viver...
Sempre.
Nagibe de Melo Jorge Neto
Fort, 26.01.2006
segunda-feira, 19 de julho de 2010
A Máquina do Mundo
E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco
se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas
lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,
a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.
Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável
pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar
toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.
Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera
e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,
convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,
assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,
a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
"O que procuraste em ti ou fora de
teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,
olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,
essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo
se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste... vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.”
As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge
distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos
e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber
no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar,
na estranha ordem geométrica de tudo,
e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que todos
monumentos erguidos à verdade:
e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,
tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.
Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,
a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;
como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face
que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,
passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes
em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,
baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.
A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,
se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.
Carlos Drummond de Andrade, Claro Enigma.
Este poema foi escolhido como o melhor poema brasileiro de todos os tempos por um grupo significativo de escritores e críticos, a pedido do caderno “MAIS” (edição de 02-01-2000), publicado aos domingos pelo jornal “Folha de São Paulo”. Publicado originalmente no livro “Claro Enigma”, o texto acima foi extraído do livro “Nova Reunião”, José Olympio Editora – Rio de Janeiro, 1985, pág. 300.
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco
se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas
lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,
a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.
Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável
pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar
toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.
Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera
e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,
convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,
assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,
a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
"O que procuraste em ti ou fora de
teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,
olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,
essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo
se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste... vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.”
As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge
distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos
e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber
no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar,
na estranha ordem geométrica de tudo,
e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que todos
monumentos erguidos à verdade:
e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,
tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.
Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,
a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;
como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face
que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,
passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes
em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,
baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.
A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,
se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.
Carlos Drummond de Andrade, Claro Enigma.
Este poema foi escolhido como o melhor poema brasileiro de todos os tempos por um grupo significativo de escritores e críticos, a pedido do caderno “MAIS” (edição de 02-01-2000), publicado aos domingos pelo jornal “Folha de São Paulo”. Publicado originalmente no livro “Claro Enigma”, o texto acima foi extraído do livro “Nova Reunião”, José Olympio Editora – Rio de Janeiro, 1985, pág. 300.
domingo, 18 de julho de 2010
Eugenio Montale
Talvez uma manhã andando num ar de vidro,
árido, voltando-me, verei cumprir-se o milagre:
o nada às minhas costas, o vazio atrás
de mim, com um terror de embriagado.
Depois como em painel, assentarão de um lanço
árvores casas colinas para o habitual engano.
Mas será tarde demais; e eu irei muito quedo
entre os homens que não se voltam, com meu segredo.
(tradução: Renato Xavier)
Comentário
Eugenio Montale, nas palavras de Umberto Eco, "é provavelmente o maior poeta italiano do século XX (e na minha opinião um dos primeiríssimos poetas do século XX em geral), recebeu seu Nobel apenas em 1975"
Esse poema de Montale é um dos meus favoritos. Descreve inusitamente o ar, como "ar de vidro" e fala do vazio, com o qual todos nós nos deparamos, com um "terror de embriagado", uma imagem forte e desconcertante, quase desesperadora. O poeta não se deixa abater e segue quedo.
O poema me faz lembrar a Máquina do Mundo, de Drummond, que é belíssimo. Teria Drummond se inspirado em Montale?
árido, voltando-me, verei cumprir-se o milagre:
o nada às minhas costas, o vazio atrás
de mim, com um terror de embriagado.
Depois como em painel, assentarão de um lanço
árvores casas colinas para o habitual engano.
Mas será tarde demais; e eu irei muito quedo
entre os homens que não se voltam, com meu segredo.
(tradução: Renato Xavier)
Comentário
Eugenio Montale, nas palavras de Umberto Eco, "é provavelmente o maior poeta italiano do século XX (e na minha opinião um dos primeiríssimos poetas do século XX em geral), recebeu seu Nobel apenas em 1975"
Esse poema de Montale é um dos meus favoritos. Descreve inusitamente o ar, como "ar de vidro" e fala do vazio, com o qual todos nós nos deparamos, com um "terror de embriagado", uma imagem forte e desconcertante, quase desesperadora. O poeta não se deixa abater e segue quedo.
O poema me faz lembrar a Máquina do Mundo, de Drummond, que é belíssimo. Teria Drummond se inspirado em Montale?
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